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    18 November

    .

    "Bem, como vai você?
    Levo assim calado de lá
    tudo que sonhei um dia
    como se a alegria
    recolhesse a mão
    pra não me alcançar

    Poderia até pensar
    que foi tudo sonho
    ponho meu sapato novo
    e vou passear
    sozinho como der
    eu vou até a beira
    besteira qualquer
    nem choro mais
    só levo a saudade morena
    é tudo que vale a pena..."
    (Los Hermanos)
    15 October

    é, João...

      Era outubro. Derradeiro domingo de feriado, chovia. Lá quedava-se o João, homem simples, à porta do buteco, absorto, esperando a chuva passar para seguir a pé o caminho pós noitadas pesadas farrapos/zona norte. Desde seus dezenove anos, descobrira que podia não mais se sentir a parte daquele mundo zonzo que o circundava nessas situações pelo simples ato de caminhar. Agora, com quarenta e seis, não relembra suas descobertas, cumpre-as. Carrancudo, olha novamente para a rua solenemente deserta. Solta um resmungo. Adentro ao bar, está  Laérsio, velho companheiro. Senta-se ao seu lado, sem dirigir palavra. Há muito o silêncio lhes tornou rotina. Mal se cumprimentam. Um companheirismo incondicional. De repente, Laérsio olha pesaroso para João, João retribui-lhe com um olhar de estranhesa, Laérsio respira fundo:
    - Eu te amo.
    é... que merda, ein, João?
    04 July

    poemeto

    É maldade, tão somente,
    dessa gente, só pode...
     
    Eu queria entender qu'é que passa aí por dentro
    que, dentre o tanto de bem feito, só quer ver mal descabido,
    e adentra, às pressas, pronta, solução dessas, tão tonta,
    a tudo se acabar por preceito desfeito.
    É efeito mal feito tornar questão por verdade.
     
    Ai! é maldade, só pode.
    Ode ao amor morto em acidente de trabalho.
    Faltou pitada de razão, pitada de ilusão,
    quiçá certa prudência,
    mais consciencia inconsciente...
     
    É inconseqüencia dessa gente.
    É maldade, só pode...
    24 June

    poemeto

    Batuta o matuto um trejeito no jeito à gente a que vai se'xplicar
    Matuta a cera de se ter por feito o leito onde se vai deitar
    Carece, mal quisto, dum visto, dum ato, dum fato de se orgulhar
    E chora por pena da cena de nao ser alegre quando deve estar...
     
    E tenta matar a desgraça, matar na cachaça,
    - ma non c'è l'ho qui!
    Inventa uma cisma no peito, amor sem despeito
    - no, non c'è l'ho qui...
    25 April

    sei lá... resgatando as velharia

    claro!
    vamos chamar os amigos, os vizinhos, os familiares! e façamos a festa de comemoração no grande dia que os fortes alados sobrevoarão nossos capuzes vermelhos. Saberemos tudo que se passa, deteremos as frases sorrateiras dos mendigos fedorentos, deteremos AS VERDADES! Veremos os cães sarnentos e ferozes atrás do alimento vil, que conforta o corpo, mas deforma o espírito, de cômodo camarote. Ouviremos a sétima trombeta em ecos de 5 em 5 segundos, ninguém saberá o que se passa, mas nós...há, nós estaremos em nosso banquete maestral lambusados com gordura de coxinhas de galinha, tomando vinhos do monte olimpo, a rir desses pobres coitados encarniçados em sua própria crua e fétida camada sebosa!
    somos a larva que come o cadáver d'el rei!
    somos a bactéria que sintetiza o nitrogênio atmosférico!
    somos a vida, meus amigos... somos a vida...
    22 March

    chegou!

    chegou a inspiração! dias de boa colheita hão de vir...
    aprocheguem-se, façuavor.

    Nova Prece

    seu Senhor, não leve a mal a minha vida tão carnal.
    S'eu vou pecando, deixe assim... eu sei lá quando qu'é meu fim
    seu Senhor, tent'entender q'essa conversa é de doer.
    "Nascer devendo até a vida" é palavra descabida.
     
    Amém!
    Amém!
     
    seu Senhor, mas deixa disso e vai tratar do que é mais errado!
    seu Senhor, desce daí pra sentir, desse mal, só um bocado!

    oh, solidão!

    se foi, tão cedo, a dama tanto quanto fosse impossível se notar a dor daqueles olhos vãos... e se deixou calar por um amor tão vil, foi fraca em acreditar na doce ilusão de se entregar a qualquer dito popular acerca do amor que cega a ponto de matar e mata a ponto de fazer do vivo um moribundo ser profundo a qualquer outro mundo fora o seu. E a roda-viva cessa a rodar e queda-se a despencar abismo adentro atenta a qualquer chão onde se possa espatifar, em que se possa acabar o doloroso e forte alento a lhe soprar a frio a horrível sensação de ver-se, enfim, completamente só.
    10 March

    lá vem

    Escrevendo e escrevendo só pelo ato, sabe com'é. Sai penando co'as asas da cuca, jogando o de sempre, jogo do são. Ato do auto furtivo - réquiem ao bom pensador de si a si que, fosse como fosse, não sabe nem se dia algum já foi, por ser. De nada se sabe... de nada. Quem um dia diria que...? Ninguém. Tolice.
    E vão me começando os sintomas do ócio crônico e da desocupação que mata aos poucos.
    07 February

    Critilo

    Embora você não queira ficar à beira, quase a cair,
    dentro do abismo entre a loucura e a razão,
    agora, você se orgulha de ser aceito.
    Sem um defeito, mais um poeta.
    Um imperfeito ato primeiro do grande ator que atua em vão.
     
    Em vão, vão atrás de alguém
    que nada faz além de ouvir quem
    os vê como alguém que nada faz além
    de ouvir quem o vê como alguém
    que nada faz além de ouvir aquém
    e ver como ninguém nada faz além
    de ouvir quem os tem como alguém
    que nada faz além de ouvir quem
    os tem como alguém...
    04 January

    Pia não pia.

    (...)
    O:  'Tá, eu te do otra chance. Eu converso contigo.
    A:  Ui, é ele quem manda na relação. Muito obrigada pela outra chance, de coração.
    O:  De nada. Sabe como é, eu so um cavalheiro. Mas eu desconhecia a nossa relação... Mas 'tá, pode ser. Tu até que é jeitosinha.
    A:  Eu tenho uma relação até com a pia do banheiro da minha casa.
    O:  Uh! Que devassa.
    A:  Não, foi só um exemplo.
    O:  Um exemplo devasso.
    A:  Foi só pra tu entender...
    O:  Eu entendi que tu tem relações promíscuas.
    A:  Que tipo de relação tu 'tá falando?
    O:  Tu sabe.
    A:  Nada a ver, eu não tenho um caso com a pia do meu banheiro. É só uma relação. Ela me serve.
    O:  Do mesmo jeito que tu me serve?
    A:  (Bah, que que é isso) Eu nao sirvo ninguém.
    O:  Mas...Mas...  Tu falou que eu mandava na relação e que tem uma relação com a pia do banheiro. Segue a hierarquia... ora!
    A:  Mas são relações diferentes.
    O:  Ahh! Pois então, daí eu repito que eu desconhecia a nossa relação.
    A:  Porra! Existe uma relação entre todo o mundo, todas as pessoas do mundo.
    O:  Hum. E o que a pia do banheiro tem a ver com isso? Tu tem algum trauma de infância relacionado à pia do banheiro?
    A:  Hahaha! Não, foi só um exemplo tosco pra explicitar.
    O:  Então tu me comparou à pia de um banheiro? ...do teu banheiro?
    A:  Tô me irritando.
    O:  Eu só quero explicitar.
    A:  Explicitar o que?
    O:  A pia.
    A:  Deixa a pia ser pia.
    O:  Deixo, porque eu mando na relação. E, se eu falo que a pia é pia, a pia é pia.
    (...)
    02 January

    Feliz Ano Novo!

    E é natal, ano novo, carnaval.
    Estourem as champagnas! Gritem viva! É a hora.
    Hora feliz, essa, de esquecer,
    não de pensar, só de ser...

    e de, finalmente, viver...
    uma vida transbordante
    aos urros de alegria, cadente
    aos corpos em frenesi, pingante
    em lágrimas infantes
    dos olhos urrantes,
    dos pulsos em fogo!
    escorrendo,
    caindo,
    quente,
    leve,
    doce.

    25 December

    Leia-se um Feliz Natal.

    Muito comum. Já faz parte da rotina. É como levantar da cama e ir ao banheiro. É o Natal.
    Todo mundo bonito, todo mundo feliz. Porque é o Natal.
    E é bem verdade que ninguém sabe muito ao certo o porquê, afinal, dessa birosca. Simplesmente acontece - vai-se dezembro adentro, as luzinhas começam a piscar, muitos descontos, alegria, alegria, alegria! Porém, difícil ver pessoa qualquer convicta o bastante a falar de boca cheia sobre o que leva aquilo a isso, difícil...
    Mas vamos... é o de praxe, é o que se faz. E os famíliares que se vêem toda a semana se comportam como entes distantes, e os irmãos notam que tem irmãos, e nos enchemos de presentes, e nos lambusamos de presentes, de gargalhadas, de porcos assados, de champagne.
    Viva o feriado, viva o motivo qualquer que se arranja pra se sair da rotina (a micro, não a macro), viva a folga...
    Bando de vagabundo, vo te contá...
    e daqui a 6 dias tem mais!
    é... fim de ano é bem fim mesmo.
    05 December

    Ave LÚCIFER

    As maças envolvem os corpos nus
    Nesse rio que corre
    Em veias mansas dentro de mim
    Anjos e Arcanjos repousam neste Édem infernal
    E a flecha do selvagem
    matou mil aves no ar

    Quieta, a serpente
    se enrola nos seus pés
    É Lúcifer da floresta
    que tenta me abraçar

    Vem amor, que um paraíso
    num abraço amigo
    sorrirá pra nós
    sem ninguém nos ver
    Prometa, meu amor macio
    como uma flor cheia de mel
    pra te embriagar
    Sem ninguém nos ver

    Tragam luvas negras
    Tragam festas e flores
    Tragam corpos e dores
    Tragam incensos e odores

    Mas tragam Lúcifer pra mim
    Em uma bandeija pra mim...

    (Os Mutantes)

    03 December

    Ô Medo/Finalidade

    Vá-se embora, ô medo,
    Se me dói sonhar tão alto.
    Me pode então ser feito
    Algo direito. Que se faça...

    Eu não acredito em deus,
    Eu não acredito em ninguém.
    Fui-me ao vento a tempo de não mais acreditar
    Em algo que me possa dizer um fim.
    Eu não acredito em amor,
    Eu só acredito em mim.
    Pois corre o tempo de toda uma nova geração
    Ao vento que sopra um fim à escravidão
    Desse povo infeliz...
    Oh! povo infeliz.
    26 November

    sobr'insentido em desficuidadecer...

    "tem,
    tem, por certo,
    tem maior encanto qu'essa fútil incapacidade
    de se tomar por desconhecido o qu'é que há d'especial
    em se ver, afinal, perdido e aperceber-se(r) tão banal
    acontecer... sem acontecer."
    17 November

    Reflexões II

    Pois é, de repente voltei a pensar.
    E, durante uma noite de insônia horrenda, cá tive eu um clique...
      
    o fato:
    ...(*)daquelas noites que não se sabe se 'tá dormindo ou acordando, ou no meio termo, ou nem isso nem aquilo. Daquelas noites... eu tava no meio de um fogo cruzado na argentina. Ora eu era um documentário (sim, um documentário) sobre um suposto conflito dos anos 50, ora eu era um mendigo, um cachorro, ou um que quer que seja, num beco lá, vendo todo o furundunço de perto... sentindo... realmente sentindo...
    É, nada convencional... por certo que não. Mas por certo que qualquer um já passou por uma noite dessas. Noite que não se sabe o que se é, onde se 'tá, que se passou; noite afogada em delírios dos mais horrendos. Acordo. Com aquela sensação de não-saciação, com aquele sono esmurrando a nuca, com aquela confusão sobre o sonhado, fui realizando os afazeres de praxe e papapa.
    A reflexão não é sobre sonhos, a reflexão não é sobre conflitos castelhanos (que se explodam os castelhanos)... é sobre REALIDADE.
      
    a questão:
    Acho que era Kant, ouvi falar pelo menos, quem dizia que o presente não existe, é uma ilusão; não pode ser, em nenhum momento, fixado no tempo. Longe de mim distorcer palavras de Kant, oh Kant!. Até porque, mal conheço o sujeito. Mas, é verdade, tem muito de lógica nesse devaneio kantoso aí. Por muito tempo acreditei nisso - afinal, ao ser pensante, é o óbvio. Contudo, um dia a gente tem uma (*). Não sei por quê, mas, entre uma e outra manteigada no pão, me veio o tal clique - cliquesse, supostamente, oposto total a Kant, oh Kant!.
    ...porque é tudo, afinal, um presente constante. Sim, meus caros, toda a realidade que vos arrodeia não passa de um presente-"futuro", determinando impiedosamente vosso presente-"presente", o qual, por tabela, já determinou aquele presente já passado... e qual é a diferença disso e do pensamento convencional? É o mais comum pensar-se que o acontecido de hoje implica certo acontecimento amanhã, correto? Pois bem, na teoria proposta, é o contrário - o amanhã determinou o hoje. Não sei se é adequado dizer "determina" nesse caso, mas é por aí. Acostumamo-nos com o unidirecionamento de causa e conseqüencia - o que acontece antes, é causa; depois, conseqüência. Todavia, nunca se pára a pensar que nossa interpretação de realidade não segue padrões físicos newtonianos (ou qualquer outra origem que valha a isso). Tal como naquele livro do Érico - "O Resto é Silêncio" - que cada testemunha interpreta de uma maneira diferente o que aconteceu com a tal pessoa lá que caiu do prédio (é, também só ouvi falar), acontece também conosco. Não é o "passado" quem nos determina, somos sim nós quem o determinamos. Já paraste a pensar de que ele te serve num momento de plena felicidade? Tu sentes saudade ou angústia numa atividade prazerosa, sente? Por certo que não, porquanto isso É, com todas as letras, o "PASSADO" - teu futuro motivo de saudosismo. 'Tá me entendendo? Nosso "passado" é dependente do estado de espírito presente; nosso presente é dependente do estado de espírito "futuro"!
    Pensaí...
      
    Em suma, o tempo é uma constante.
    ...e fim de papo!
    15 November

    o de sempre... né?

    E lá vem, e lá vem / vem aquela inquietação
    caquetinquetação / angústia muda, angústia
    e lá vem, ela vem / vem a náusea,
    lavem o vômito / dele
    porque estourou / fácil
    e passou...
    e eu fui na feira do livro; hoje era dia desses, de passe livre.
    Tinha muito malandro, tinha gente desgostada, muita gente gasta, gente...
    Vinha malandro me olhando com cara de pidão, olhar de cão molhado pedindo chance que nem Deus deu. E, que nem diabo bufão, pidiu trocado 'pa troca pão...
    Malandrage tava lá, secando a galeria
    malandrage, sacanage...
    Eu senti repulsa... admito, senti repulsa;  Gosto pelo desgosto de ficá perambulando pelo meio da gente.
    Não sei bem... a repulsa não era com a gente
    porque... sabe comé. de gente por gente a gente desconversa...
    não ia tá falando coisa assim.
    Repulsa d'alma minha, que tá perdendo a essência
    Auto-repulsa
     
    acode aí, porra
    21 October

    ¨

    entediado
    deprimido
    medo, medo, medo...
    27 September

    Judiaria

    e a amargura, e a judiaria... ah que é tudo farinha do mesmo saco
     
    Todo homem é escravo de uma mulher
    Ah! Fardo tão cruel esse amor infiel
    E essa dor-desilusão de ver a sorrir a outro afeição
    Daquela, da minha senhora, minha mulher.
     
    E, logo que me ajeito, lá vem outra a me tentar.
    E vem daquele jeito que elas sabem bem usar.
    E agora, Deus, desse coração partido fez-se outro amor perdido
    Porque elas só me sabem judiar, só judiam de mim...